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Publicado em 20/01/2026
Por Marco Antonio Granado
Em um ambiente de crédito cada vez mais sofisticado, a diferença entre uma operação bem-sucedida e um problema relevante raramente está apenas na taxa, no prazo ou na estrutura jurídica. Ela está, quase sempre, na forma como o risco foi modelado, monitorado e governado ao longo do tempo.
Operações estruturadas nascem com uma promessa clara: transformar fluxos futuros em liquidez presente, com previsibilidade e controle. No entanto, essa promessa só se sustenta quando a gestão de riscos deixa de ser um evento pontual, realizado na originação, e passa a ser um processo vivo, integrado e contínuo.
É nesse contexto que três pilares que abordaremos a seguir, se tornam indispensáveis a correta modelagem do risco de crédito, o uso de novas ferramentas analíticas e inteligência artificial, e uma governança robusta voltada à mitigação do risco operacional.
1º Pilar: Modelagem de risco de crédito: enxergar além do cedente
Tradicionalmente, muitas análises de crédito se concentram quase exclusivamente na figura do cedente ou tomador. Em operações estruturadas, essa visão é insuficiente, e assim, o risco precisa ser observado sob duas lentes complementares: a carteira e o lastro.
A modelagem por carteira permite entender o comportamento agregado dos créditos: concentração por sacado, setor econômico, região, prazo médio, inadimplência histórica, volatilidade e correlação entre recebíveis. É aqui que se identifica se o risco está pulverizado de forma saudável ou se, silenciosamente, está se acumulando em poucos pontos sensíveis.
Já a modelagem por lastro aprofunda a análise qualitativa e jurídica dos ativos que sustentam a operação. Não basta saber que há recebíveis; é fundamental compreender sua exigibilidade, a robustez dos contratos, a existência de cláusulas de compensação, riscos de contestação, prazos reais de liquidação e histórico de recompras ou substituições.
Quando essas duas visões são integradas, o gestor deixa de operar no escuro. Ele passa a enxergar não apenas a fotografia atual da carteira, mas também seus cenários de estresse, identificando antecipadamente onde uma deterioração pode começar e como ela tende a se propagar.
2º Pilar: Do relatório mensal ao monitoramento contínuo
Durante muito tempo, o acompanhamento do risco foi baseado em relatórios mensais ou trimestrais. Em um mercado cada vez mais dinâmico, essa lógica se tornou obsoleta, o risco não respeita calendários, ele se manifesta em tempo real.
É justamente aqui que entram as novas ferramentas analíticas e a aplicação de inteligência artificial. Hoje, já é possível estruturar modelos capazes de monitorar continuamente o comportamento da carteira, identificando desvios sutis antes que eles se transformem em inadimplência material.
A IA aplicada ao crédito não substitui o julgamento humano, mas amplia significativamente sua capacidade. Algoritmos conseguem detectar padrões invisíveis a análises tradicionais: mudanças no perfil de pagamento de determinados sacados, aumento anormal de atrasos em segmentos específicos ou correlações inesperadas entre eventos externos e o desempenho da carteira.
Além disso, ferramentas analíticas modernas permitem cruzar dados financeiros com informações operacionais, cadastrais e até macroeconômicas, criando alertas preditivos. O gestor deixa de reagir a problemas e passa a atuar de forma preventiva, ajustando limites, reforçando garantias ou revendo critérios de elegibilidade antes que o risco se materialize.
3º Pilar: Governança: o antídoto silencioso contra o risco operacional
Se o risco de crédito é o mais visível, o risco operacional costuma ser o mais subestimado, e, paradoxalmente, um dos mais perigosos, sendo assim, falhas de processos, dependência excessiva de pessoas chaves, ausência de segregação de funções e controles frágeis podem comprometer estruturas inteiras, mesmo quando o crédito é bom.
Uma governança eficaz começa com papéis e responsabilidades claramente definidos. Quem origina não pode ser o mesmo que aprova, desta forma, quem estrutura não deve ser o único a validar o lastro. E quem monitora precisa ter independência para reportar riscos sem conflito de interesses.
Além disso, processos precisam ser documentados, testados e revisados periodicamente, pois, em operações estruturadas, a exceção tende a virar regra se não houver disciplina, e assim, cada exceção não tratada adequadamente aumenta exponencialmente o risco de falhas futuras.
A governança moderna também incorpora tecnologia. Checklists automatizados, trilhas de auditoria digitais, indicadores-chave de risco (KRIs) e dashboards gerenciais deixam de ser luxo e passam a ser ferramentas essenciais de sobrevivência.
Diante desse cenário, o papel do gestor evolui muito, ele deixa de ser apenas um tomador de decisões pontuais e passa a atuar como orquestrador de riscos, integrando dados, pessoas, tecnologia e governança.
Gestores que entendem essa mudança percebem que a gestão de riscos não é um custo, mas um ativo estratégico, e sim, ela reduz perdas, melhora a previsibilidade de resultados, fortalece a confiança de investidores e reguladores e, sobretudo, cria resiliência em ambientes de incerteza.
Em um mercado onde estruturas se tornam cada vez mais complexas e competitivas, a vantagem não está em quem assume mais risco, mas em quem entende melhor o risco que está assumindo.
Portanto, a gestão de riscos em operações estruturadas não é uma disciplina isolada nem um conjunto de relatórios formais, passa a ser uma mentalidade, uma forma de enxergar o negócio de maneira sistêmica, antecipando cenários, corrigindo rotas e protegendo valor.
Empresas que dominam a modelagem por carteira e por lastro, utilizam inteligência analítica de forma contínua e mantêm uma governança sólida não apenas sobrevivem, elas se destacam, e num mercado cada vez mais exigente, esse diferencial pode ser exatamente o que separa crescimento sustentável de problemas recorrentes.
Marco Antonio Granado é empresário contábil, contador, perito judicial, docente, palestrante e escritor de artigos empresariais. Atua como consultor empresarial nas áreas contábil, fiscal, tributária, trabalhista e de gestão empresarial. É docente na UNISESCON-SP, SINDCONT-SP, CRC-SP, SINFAC-SP, ABRAFESC e outras entidades. Atua como orientador contábil, tributário, trabalhista e previdenciário do SINFAC-SP e da ABRAFESC. Foi conselheiro consultivo da JUCESP (2019–2022) e membro da 5ª Seção Regional do IBRACON (2017–2025). Atualmente, representa o SINFAC-SP atuando como Membro na Comissão de Direito das Micro e Pequenas Empresas da OAB-SP (CDMPE). É Bacharel em Contabilidade e em Direito, pós-graduado em Direito Tributário e Processo Tributário, mestre em Contabilidade, Controladoria e Finanças pela FIPECAFI-USP.