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Publicado em 10/09/2026
Por Marco Antonio Granado
Pense no melhor trabalho técnico que sua empresa já entregou: uma proposta impecável, um projeto tecnicamente perfeito, uma análise que fechava todas as pontas. Agora imagine que, na hora de apresentar esse trabalho ao cliente, ao sócio ou à diretoria, a explicação saiu confusa, cheia de jargão, sem estrutura. O que acontece? O trabalho perfeito perde valor, porque ninguém enxergou a qualidade dele. Isso se repete todos os dias em empresas de todos os tamanhos: o conteúdo está certo, mas a comunicação está errada, e quem deveria confiar sai da sala com dúvida, pois, essa cena simples explica por que comunicação não é um detalhe de forma, é parte do produto que qualquer profissional entrega.
Comunicação organizacional é o processo pelo qual informações e significados são trocados entre pessoas, com a finalidade de coordenar esforços e alcançar objetivos comuns, sendo assim, repare que a definição fala em "significados", não em "falar", e essa diferença é decisiva, pois, dá para falar muito e comunicar pouco, se quem ouve não entende exatamente o que se quis dizer. O modelo clássico descreve esse processo em seis elementos: emissor, codificação, mensagem, canal, decodificação e receptor, e em qualquer um deles pode entrar ruído, pois, um ambiente barulhento, um termo técnico que o outro lado não conhece, ou o estado emocional de quem escuta, com pressa ou já prevenido contra o que vai ouvir, e assim, sem um elemento final, o feedback, a resposta que confirma se a mensagem foi mesmo compreendida, ninguém sabe se comunicou alguma coisa ou só falou sozinho.
Cinco barreiras concentram a maior parte dos mal-entendidos nas organizações, e vale conhecê-las pelo nome, porque problema identificado fica muito mais fácil de evitar:
a) a filtragem: acontece quando a informação passa de pessoa a pessoa e cada uma resume ou ajusta a mensagem antes de repassar, um telefone sem fio corporativo, em que raramente o que sai da diretoria chega intacto na ponta;
b) a sobrecarga de informação: surge quando tudo parece urgente ao mesmo tempo, e a mente simplesmente não consegue priorizar direito;
c) a percepção seletiva: faz com que cada pessoa ouça, antes de tudo, o que já esperava ouvir, filtrando o que contraria suas crenças prévias. As emoções distorcem a mesma mensagem de formas completamente diferentes dependendo do estado de quem escuta;
d) a linguagem: o jargão técnico que é claríssimo para quem fala e incompreensível para quem ouve, completa a lista. Vale lembrar ainda que boa parte do que se comunica não passa pela palavra: quando o tom de voz, a postura e o olhar contradizem o que está sendo dito, as pessoas quase sempre acreditam no corpo, não na frase.
e) a competência: mais rara de todas, a escuta ativa, não é ficar calado esperando a vez de falar, é ouvir para entender, e não para responder.
Por mais bem cuidada que seja a comunicação, divergências vão aparecer, e aqui vale desfazer um mito, pois, conflito não é sinônimo de briga, e não é, por si só, um problema, e sim, é apenas a percepção de que interesses ou ideias são incompatíveis, e assim, uma equipe onde ninguém nunca discorda de nada não é uma equipe harmoniosa, é uma equipe acomodada, com maior risco de estagnação, pois, a diferença está no conflito de tarefa, sobre o conteúdo e os objetivos do trabalho, em doses moderadas, costuma melhorar a qualidade das decisões, e assim, o conflito de relacionamento, feito de atrito pessoal, quase sempre reduz a performance e corrói a confiança da equipe, pois, diante de qualquer conflito, existem cinco caminhos possíveis, descritos no conhecido modelo de Thomas e Kilmann:
a) competir, impondo o próprio interesse;
b) acomodar-se, cedendo ao interesse alheio;
c) evitar, adiando o confronto;
d) buscar um meio-termo rápido;
e) ou colaborar, buscando com a outra parte uma solução genuinamente melhor do que as duas posições iniciais.
Nenhum estilo é sempre certo, a maturidade profissional está em reconhecer qual a situação exige, e não em repetir sempre o mesmo padrão no automático.
É exatamente aqui que comunicação e conflito deixam de ser episódios isolados e começam a explicar algo maior: a cultura de uma empresa, pois, a cultura organizacional é, no fundo, o resultado acumulado de milhares de pequenas comunicações e conflitos, bem ou mal resolvidos, repetidos ao longo do tempo até virarem hábito coletivo, as crenças, valores e comportamentos que todo mundo ali passa a considerar "normais", muitas vezes sem conseguir explicar por quê.
Uma empresa onde discordâncias são silenciadas constrói, sem perceber, uma cultura de acomodação; uma empresa onde o conflito de tarefa é bem-vindo e bem conduzido constrói uma cultura de aprendizado contínuo, desta forma, o clima organizacional é um primo mais volátil da cultura: enquanto a cultura muda lentamente, o clima é a temperatura emocional do momento, como as pessoas se sentem, hoje, em relação ao trabalho, à liderança e umas às outras, e assim, um clima ruim pode conviver, por um tempo, com uma cultura sólida; mas um clima ruim persistente é, quase sempre, o primeiro sintoma visível de que algo na cultura precisa de atenção.
Um exemplo simples amarra essa cadeia inteira, seta forma, imagine duas áreas de uma mesma empresa, a área comercial, que quer fechar vendas rápido, e a área financeira, que precisa avaliar o risco de crédito de cada cliente novo antes de liberar o pedido, pois, o comercial reclama que o financeiro "trava tudo". Já o financeiro reclama que o comercial "vende para qualquer um". Sendo assim, temos um conflito de tarefa legítimo, decorrente de prioridades diferentes, que poderia ser resolvido com uma conversa objetiva e um critério combinado entre as duas áreas, mas, se a comunicação entre elas for sempre feita por e-mails secos, sem espaço para entender o porquê da posição do outro lado, esse conflito de tarefa vira, com o tempo, conflito de relacionamento: as pessoas passam a evitar contato, a rádio corredor de cada área cria uma narrativa própria sobre a outra, e o que era uma diferença legítima de prioridades vira desconfiança pessoal.
Se repetir esse padrão por meses, e o que se instala não é mais um problema pontual, é um traço da cultura da empresa, um clima permanente de "nós contra eles" entre departamentos, e um jogo político em que cada área passa a disputar influência com a diretoria em vez de resolver o problema na origem. A boa notícia é que a mesma cadeia funciona ao contrário: uma comunicação clara e um conflito bem conduzido, logo no início, evitam que esse ciclo se instale.
Por trás de toda essa dinâmica circula um elemento que muita empresa prefere não nomear: o poder, esse poder organizacional raramente se resume ao cargo no organograma, existindo o poder legítimo, que vem da posição formal; mas existe também o poder de recompensa e o de coerção, ligados à capacidade de premiar ou penalizar; o poder de especialista, de quem detém um conhecimento que os outros precisam; e o poder de referência, de quem é respeitado e admirado independentemente do cargo, o mesmo tipo de influência informal que, na conversa sobre liderança, já distinguia quem apenas manda de quem é seguido de verdade.
Ignorar essas fontes de poder não as faz desaparecer: só impede a empresa de entender por que certas decisões, tecnicamente piores, acabam vencendo, e é exatamente esse jogo de influência, alianças e interesses por trás das decisões formais que se chama política organizacional, pois, política não precisa ser sinônimo de manipulação; é, antes de tudo, a realidade inevitável de qualquer grupo humano com recursos limitados e interesses nem sempre alinhados. Empresas maduras não fingem que ela não existe, administram-na com transparência, para que decisões relevantes sejam tomadas pelo mérito do argumento, e não apenas pela habilidade de manobra de quem participa da conversa.
No fim, comunicação, conflito, cultura, clima, poder e política não são seis assuntos separados, são seis ângulos do mesmo fenômeno: como as pessoas, dentro de uma empresa, realmente interagem para fazer as coisas acontecerem, e assim, nenhum organograma, por mais bem desenhado, dá conta sozinho dessa realidade.
O empresário, o gestor e o empreendedor que aprendem a enxergar esses seis ângulos ao mesmo tempo, em vez de tratar cada mal-entendido, cada atrito e cada disputa de influência como um evento isolado e imprevisível, ganham algo raro: a capacidade de ler o que realmente move a organização por baixo do que está escrito no papel, e ganham também uma vantagem prática, nada abstrata: equipes que se comunicam com clareza, que sabem transformar conflito em decisão melhor, e que enxergam com honestidade os jogos de poder e influência à sua volta, simplesmente erram menos, resolvem problemas mais cedo e retêm mais talento do que aquelas que preferem fingir que essas seis forças não existem.
Marco Antonio Granado é empresário contábil (1994), contador (1988), autor de mais de 4.500 artigos voltados ao universo empresarial, atuou em grandes empresas nacionais em multinacionais como: contador, gerente contábil, gerente financeiro, controller, diretor financeiro. Atua como consultor, orientador e conselheiro: contábil, tributário, financeiro, trabalhista e previdenciário, assessorando empresas na organização de processos, no planejamento estratégico, na mitigação de riscos, na otimização de cargas fiscais e na implementação de práticas de gestão que fortalecem a governança e a competitividade do negócio. Docente e palestrante em instituições: SINFAC-SP (2012), ABRAFESC (2020), UNISESCON-SP/AESCON-SP (2021), SINDICONT-SP (2021), CRC-SP (2022), OAB-SP (2024), Universidade São Judas Tadeu (USJT) (2026), entre outras entidades de destaque no cenário profissional e acadêmico, em âmbito nacional. Consultor contábil, tributário, trabalhista e previdenciário no SINFAC-SP (2012) e da ABRAFESC (2020), Conselheiro Consultivo da JUCESP (2019–2022) (2026-2029), foi membro da 5ª Seção Regional do IBRACON (2017–2025), Membro da Comissão de Direito das Micro e Pequenas Empresas da OAB/SP (2025 até hoje). Doutorando em Controladoria, Finanças e Tecnologias da Gestão (Mackenzie) (2026), Mestre em Contabilidade, Controladoria e Finanças (FIPECAFI-USP) (2020), Pós-Graduado em Direito Tributário e Processo Tributário (USJT) (2015), Bacharel em Direito (UNIP) (2005) e Bacharel em Contabilidade (USJT) (1988).