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Publicado em
27/10/2026
O uso de indicadores de mercado, inteligência de dados e monitoramento contínuo das operações para identificar sinais de deterioração financeira antes da inadimplência foi o tema do encontro promovido pelo SINFAC-SP e pela Dimensa, em 22 de outubro, na sede do sindicato, em São Paulo. O debate reuniu especialistas para discutir como o histórico de pagamentos, a evolução do endividamento e as informações sobre o comportamento das empresas podem contribuir para decisões de crédito mais preventivas e seguras.
Participaram da programação Ubiratan Lima, diretor da unidade de Bancos da Evertec Brasil; Márcio Lima, CEO e sócio fundador da Ignis Capital; e Guilherme Chiferi, consultor estratégico para FIDCs e securitizadoras. A discussão também abordou a aplicação prática do CredMap, plataforma da Dimensa voltada à análise e ao monitoramento de crédito.
Um dos aspectos destacados foi a necessidade de interpretar os dados de acordo com o contexto de cada operação. A existência de protestos ou atrasos, por exemplo, não deve ser considerada isoladamente, assim como a ausência de restrições não garante a capacidade de pagamento de uma empresa. O comportamento financeiro, a quantidade de parceiros e as mudanças no volume de operações ajudam a compor uma avaliação mais consistente.
Para Márcio Lima, uma das informações mais sensíveis na análise de empresas cedentes é a quantidade de instituições com as quais elas mantêm operações. A divergência entre o endividamento declarado e aquele identificado nas consultas pode indicar a necessidade de aprofundar a avaliação. “Para mim, uma das informações mais sensíveis na análise de cedente é a quantidade de parceiros com que ele está operando”, afirmou.
Márcio Lima também chamou a atenção para as limitações dos métodos tradicionais de troca de informações entre empresas do setor. Embora essas consultas contribuam para a análise, os dados podem ser incompletos, desatualizados ou influenciados pela percepção de quem os fornece. Segundo ele, o acesso a registros de boletos permite ampliar a visão sobre o histórico financeiro das empresas. “Então, a gente tem uma informação objetiva, íntegra, confiável e imparcial. Sem o viés da pessoa que está trocando informações”, destacou.
Outro ponto discutido foi a importância de acompanhar a trajetória financeira dos clientes ao longo do tempo. Alterações bruscas no volume de pagamentos, crescimento incompatível com o histórico da empresa ou diferenças expressivas entre faturamento e movimentação financeira podem indicar situações que exigem uma investigação mais detalhada.
Guilherme Chiferi chamou a atenção para a importância de acompanhar a evolução dos pagamentos ao longo do tempo, especialmente quando há mudanças bruscas no comportamento de uma empresa. Como exemplo, citou situações em que um negócio apresenta baixa movimentação durante vários meses e, repentinamente, registra um crescimento expressivo. “De repente, a empresa rampa muito rápido. Isso, para mim, é um sinal. Quer dizer, alguma coisa tem de estranha nessa empresa”, afirmou. Segundo o consultor, quando essa alteração é identificada na análise de um sacado, a necessidade de avaliar o risco e tomar uma decisão se torna ainda mais urgente.
A possibilidade de comparar diferentes informações disponíveis no CredMap também foi abordada. Ubiratan explicou que a plataforma permite consultar dados relacionados à emissão e à liquidação de boletos, além de acompanhar valores vencidos, a vencer e o comportamento das empresas na condição de sacadas. “Esses registros ajudam a identificar variações e possíveis descompassos entre o volume de operações e a capacidade financeira dos clientes”.
Márcio Lima ressaltou, contudo, que essas informações precisam ser interpretadas considerando a abrangência da base consultada. Como os dados se referem a boletos registrados, pagamentos realizados por outros meios podem não aparecer nos relatórios. Por isso, a ferramenta deve complementar a análise de crédito, e não substituir a avaliação dos demais elementos da operação.
Além dos indicadores financeiros, os participantes discutiram os riscos associados à pressão comercial e à necessidade de aprovar operações em prazos reduzidos. O tema ganhou destaque diante da importância de conciliar agilidade, concorrência e segurança nas decisões.
Em situações em que o analista precisa decidir sob forte pressão, Guilherme recomenda cautela, especialmente diante de operações de valores elevados. “Nunca decida sob forte estresse”, alertou. Segundo ele, o acúmulo de solicitações próximo ao encerramento do expediente pode aumentar a possibilidade de falhas na avaliação.
O encontro reforçou a importância de combinar conhecimento técnico, experiência de mercado e ferramentas de inteligência de dados para identificar sinais de deterioração financeira. A análise contínua do comportamento das empresas, associada à interpretação criteriosa dos indicadores, foi apresentada como um caminho para aprimorar a gestão de riscos e reduzir a exposição à inadimplência.